segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

309 - Autorretrato à porta



Aqui


Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 15 de outubro de 2017

303 - Mau despertar

Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum

Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
tenho
riscado
de hematomas

Zonzo lavo
na pia
os olhos donde
ainda escorre
uns restos de treva.


Ferreira Gullar

quinta-feira, 20 de julho de 2017

301 - Translucidez









































Olhar perdido de um canto,
pronto.
Uma rajada de silêncio,
uma súbita parada em tudo,
um solavanco .
Olhos marejados.
Síntese de sentimentos.
Pelas lupas das lágrimas,
um mundo multienredado:
Bilhões de cores em formas.
E de súbito compreendo sua face:
Seu doce ser, o turbilhão de seu significado
que em dias de olhos secos
passa sem ser notado.


Adilson Crepalde